Escrevi este artigo para o jornal Folha de São Paulo no dia 06 de outubro abordando a questão da transparência na área da saúde. Com a chegada das eleições transparência é um tema que ganha importante destaque, ainda mais se tratando de saúde. Espero que gostem.
Fala-se muito em transparência hoje no Brasil, no mundo corporativo, no cenário político e até nas relações pessoais, pede-se, cobra-se transparência. Mas o fato é que a transparência deixou de ser um processo de observação cristalina para assumir um discurso de políticas de averiguação de custos engessadas que pouco ou quase nada retratam as necessidades de populações distintas.
E, em nome de um cenário confuso, isso vem ocultando, na saúde, dados positivos das organizações sociais e vem servindo como uma bandeira jurídica que, no mínimo, mereceria um melhor entendimento, pois as leis, em tese, são criadas para aprimorar a dinâmica do entendimento social, e não para alimentar uma indústria que se afasta progressivamente das necessidades dos cidadãos.
Transparência em saúde é, sim, o custo de cada processo. Mas é, sobretudo, o entendimento pleno de como funciona, como atende, e como beneficia o cidadão. Alguém com justa e adequada formação tem questionado esses valores da assim chamada transparência.
O SUS é uma referencia global em termos de equidade social, mas ainda deixa muito a desejar nos quesitos integralidade, universalidade e mesmo qualidade. Conceitualmente apresenta números atribuídos, mas na prática, ainda merece grandes aprimoramentos. A política de Estado tem evoluído no sentido de encontrar respostas a tais necessidades.
Quando São Paulo cria organizações sociais e o governo ecoa com propostas com fundações é porque, dentro dos grupos técnicos, com um certo e compreensível tempero político, existe a percepção de que algo tem que ser feito a mais para de fato levar a saúde a toda a população.
Discute-se sua natureza jurídica, mas não a inserção da excelência e dos benefícios do modelo de gestão de algumas entidades privadas na prestação dos serviços. Isso em nada nega os princípios propostos pelo SUS, que preconiza o direito de todos e o dever do Estado de garantir a saúde, mas não explicita quem deve prestá-la.
Imaginar que possamos transformar o sistema em função das necessidades da saúde, deixando de reconhecer que há outras formas de garantir a transparência, significa menosprezar o conhecimento da sociedade.
A inserção da iniciativa privada em modelos mais avançados que o nosso e de maior justiça social não é novo. A Espanha o faz há muitos anos, como acontece em outros países europeus, onde os indicadores de qualidade de vida e de desempenho são superiores aos nossos e aos dos EUA.
Isso tem sua lógica, na medida em que estas sociedades se preocupam também com os custos, mas se acostumaram a lidar com dados sobre os quais quase nada é debatido por parte de nossos mandatários da esfera política. A esfera técnica se esforça e demosntra esse conhecimento, mas, no âmbito político, isso em nada parece afetar a consciência dos que se candidatam aos cargos majoritários. Para eles, trata-se da terceirização da saúde, e não de um debate que se pauta pelo entendimento daquilo que pode ser mais efetivo e eficiente.
Ocorre, portanto, um afastamento das necessidades reais com foco no pior dos valores, que é baseado no dinheiro. E partindo de quem, a rigor, defende a saúde como direito social.
O grau de complexidade de uma organização de saúde é enorme e só tende a crescer, por conta de fatores como o envelhecimento da população, novas tecnologias e o papel da indústria farmacêutica. Quanto mais complexo um sistema, maior o número de conflitos. Imagine um Estado pesado, com natureza licitatória lenta, com rigidez de contratações de pessoal e, portanto, sem vocação para lidar com essas demandas, querendo atuar com um mínimo de qualidade.
Aqueles que acreditam na capacidade do Estado de exercer esse papel fogem por completo do conhecimento dos mínimos quesitos de qualidade em saúde, em que o tempo e a agilidade são absolutamente vitais.
Imaginar que a saúde pode esperar no dia-a-dia ou que as contratações podem se dar ao luxo de aguardar pela obsolescência quase imediata de produtos fragmentados é o mesmo que premiar a incompetência que limita a capacidade criativa de quem deve a rigor ser monitorado dentro de indicadores de eficiência.
O Brasil é um país enorme, com grandes heterogeneidades. Seus habitantes tem necessidades singulares. Aqueles com aptidão a ajudá-los, se não estimulados por cenários competitivos, estarão fadados a não encontrar motivação para o exercício de suas funções.
Albert Einstein defendia que, em termos de justiça e verdade, não existiria diferença entre pequenos e grandes problemas: “Para assuntos relativos ao tratamento das pessoas, todos são importantes”. Portanto, trata-se de ver aquilo que é melhor para o cidadão. E, ai, basta a leitura dos indicadores. Essa é a verdadeira transparência.
October 29th, 2008 em 21:14
Boa noite Claudio. Ótimo o seu artigo, li no mesmo dia e desde então tenho refletido sobre o tema e agora me sinto mais a vontade para comentar nesse espaço que nos foi oferecido. Muito oportuno este artigo, principalmente pelo período em que estamos passando, onde muito se fala mas pouco vemos dessa transparência; onde palavras e frases são ditas apenas para campanha eleitoral e talvez até por modismo; devemos ter mais coerência entre o que falamos e fazemos. Transferindo isso para a área da saúde a situação fica mais delicada, pois essa transparência tem que ser tal qual o cristalino onde todos nós devemos enxergar com nitidez, tudo o que acontece ao nosso redor. Nós que somos da área da saúde, sabemos os problemas e as dificuldades da nossa área e o que poderíamos fazer para melhorar e isso não é a terceirização a que eles se referem e sim a “nossa transparência”. A saúde deve ser tratada com responsabilidade, respeito e dignidade, visando o bem social e não interesses próprios ou eleitoreiros. Realmente ainda estamos no ensaio e temos um longo caminho a percorrer até alcançarmos a verdadeira transparência. O Albert Einstein atua de uma forma coerente, respeitosa e digna de uma instituição filantrópica de primeira linha, sempre ajudando, como é peculiar da comunidade judaica e isso não é terceirização e sim a “nossa transparência”. Continue agindo dessa forma pois só temos a ganhar com isso. Parabéns Claudio pelo artigo e continue escrevendo temas tão importantes, instigando as pessoas a pensarem e refletirem um pouco sobre o muito que se fala e quem realmente faz. Um detalhe: isso tudo não é um filme e sim a vida real. Um grande abraço. Lilian.
November 6th, 2008 em 14:37
Amiga Lilian,
Fiquei muito contente ao ler seu comentário. Quando escrevo artigos como este, penso que se ao menos uma pessoa entender a mensagem, o esforço já terá sido válido. Palavras como estas me dão energia extra para enfrentar os problemas que atingem o setor de saúde como um todo, e não apenas os da área oftalmológica.
Um grande abraço.
Claudio
November 16th, 2008 em 13:00
Transparência, palavra pouco usada pelos nossos governantes,
principalmente na área da saúde e educação.Prometem megas edificações, mas se esquecem da qualidade do serviço prestado. Fazem escolas enormes,com salas de informática, piscinas, etc.., até parecem clubes, mas pecam na baixa qualidade de ensino, bons professores, e formação de homens de bem.
January 27th, 2010 em 10:27
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